sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Nível de reservatórios é baixo, apesar das chuvas


Mesmo tendo aumentado de intensidade nas últimas duas semanas, as chuvas de janeiro ficaram abaixo do previsto pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e ainda não foram suficientes para recuperar o nível de armazenamento dos reservatórios, o que mantém incertezas para o restante do "período úmido".
O programa mensal de operação do ONS estimava que as chuvas de janeiro chegariam a 89% da média histórica no subsistema Sudeste-Centro-Oeste e a 37% no subsistema Nordeste. Até o dia 30, ficaram em 80% e 31%, respectivamente. A média histórica contempla o registro dos últimos 82 anos e essas regiões têm as duas maiores capacidades de armazenamento do país, funcionando como uma espécie de caixa d'água para o sistema elétrico.


Para especialistas do setor, a frustração de janeiro não aumenta o risco de racionamento de energia, por enquanto. Mas joga pressão adicional para os próximos meses e inviabiliza o desligamento de usinas térmicas. Com isso, o problema é que a geração de eletricidade mais cara para economizar água nos reservatórios pode elevar os reajustes das contas de luz, principalmente em 2014.




"Em janeiro, houve uma recuperação dos reservatórios, mas não em patamar suficiente", diz o meteorologista Alexandre Nascimento, da Climatempo. Para chegar a uma situação "minimamente confortável" no fim do período chuvoso, ele acredita que seria preciso acumular de 1.000 a 1.200 milímetros de água entre janeiro e março, no Sudeste. Estimativas atualizadas, no entanto, apontam para algo entre 700 e 800 milímetros. "Não é um volume que foge da normalidade. O problema é o ponto de partida muito ruim, o que dificulta o enchimento dos reservatórios. Saímos de um dezembro péssimo."

No Nordeste, o nível dos reservatórios subiu de 32,2% no dia 1º para 32,6% no dia 30 de janeiro, o que representa o menor ganho para o mês pelo menos desde 2001. Em 2007, as chuvas também estavam muito fracas e os lagos da região aumentaram apenas 2,3 pontos percentuais. Há um ano, a folga era muito maior: o armazenamento atingia 71,7%.

No Sudeste-Centro-Oeste, os reservatórios ganharam 8,2 pontos percentuais em janeiro e estavam prestes a terminar o mês com 37% da capacidade. Há um ano, tinham 76,2% do total. "Até o começo de janeiro, a situação das chuvas estava muito ruim. A partir da segunda semana do mês, começamos a contar com sinais mais positivos", afirma Paulo Toledo, sócio-diretor da Ecom Energia.

Embora os reservatórios tenham registrado uma ligeira recuperação, Toledo ressalta que não foram atingidos níveis confortáveis. "É fato que os reservatórios ainda estão muito depreciados", observa. Para ele, a percepção no setor é de que o governo ficou mais cauteloso, a fim de garantir o abastecimento, não só em 2013, mas principalmente em 2014.

O ONS tem mantido as térmicas acionadas a plena carga durante o período chuvoso, o que é raro, e as chuvas ainda abaixo da média histórica inviabilizam o desligamento delas nas próximas semanas. "Isso se explica pelo cuidado de não termos que passar pelo mesmo sufoco no próximo verão", diz Toledo.
Além de lidar com o desafio prático relacionado à falta de chuvas, ainda há outras fatores que impõem pressões sobre o governo. No entendimento dos especialistas, o governo não quer ver o tema risco de racionamento retornar ao centro do debate nacional em 2014, ano de Copa do Mundo e eleições presidenciais.

O gerente da consultoria Andrade & Canellas, Ricardo Savoia, considera que o uso das térmicas ao longo do ano é a única alternativa, além das chuvas, para garantir a recuperação do nível dos reservatórios. Ele acredita que, por essa razão, o consumidor deverá sentir uma alta nas contas de luz, além do aumento de 5% a 6%, previsto nas projeções dos índices de inflação. Isso ocorrerá, segundo ele, justamente em razão do impacto dos encargos, que são acrescidos pelo custo elevado das térmicas. "Hoje, o Brasil tem demanda crescente por energia, maior inclusive que as taxas do PIB. Em 2012, isso pode ser observado em todos os segmentos, na residência, no comércio e na indústria", disse Savoia.

Para o meteorologista da Climatempo, a atenção deverá se voltar mais à escassez de chuvas na região Sul, onde houve grande acúmulo de água nos primeiros dez dias de janeiro e depois um período de estiagem.
"É como se a torneira tivesse fechado abruptamente no Sul. Desde o dia 13, por exemplo, Itaipu registra a menor vazão para esse período desde 1988", diz Nascimento. Os reservatórios da região estão com o nível mais baixo de armazenamento dos últimos 12 anos. No restante do país, não há nenhum fenômeno climático importante em curso para permitir prever uma extensão do período chuvoso, que normalmente termina no fim de abril, afirma.


Fonte: Valor Econômico 

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